Saúde mental das mães atípicas: o que adoece não é o filho, é o abandono estrutural
- Debora Saueressig

- 5 de mar.
- 4 min de leitura
Estudos indicam que mães de crianças autistas apresentam níveis de estresse comparáveis aos de soldados em combate. Não é a maternidade que adoece — é a ausência de políticas públicas, rede de apoio e acesso a terapias que deveriam sustentar essas mulheres.
O diagnóstico de autismo de um filho quase sempre marca o início de uma busca intensa por respostas.
No Brasil, porém, essa busca rapidamente se transforma em uma maratona exaustiva por atendimentos, exames, terapias, inclusão escolar e acolhimento — que quase nunca chegam como deveriam.
É nesse percurso que muitas mães descobrem que o adoecimento não nasce da maternidade atípica, mas da precariedade das estruturas que deveriam apoiá-las.
A frase da jornalista Débora Saueressig, mãe de um menino autista de 7 anos, sintetiza esse colapso silencioso:
“O que adoece não é o filho. É a falta de acesso ao básico.”
O desabafo ecoa entre mães de norte a sul do país — mulheres que enfrentam jornadas exaustivas enquanto tentam garantir diagnóstico, terapias e dignidade para seus filhos em sistemas que insistem em falhar.
A ciência confirma: o adoecimento é estrutural, não individual
A prevalência do autismo cresce de forma consistente. Segundo o CDC (2025), 1 em cada 31 crianças de 8 anos está no espectro.
No Brasil, o IBGE estima 2,4 milhões de pessoas autistas — número possivelmente subestimado devido às desigualdades regionais.
Enquanto os diagnósticos aumentam, o suporte destinado às famílias permanece insuficiente.
Estudos do Waisman Center, da Universidade de Wisconsin, mostraram que mães de pessoas autistas apresentam níveis de cortisol semelhantes aos de soldados em combate — uma resposta fisiológica ao estresse contínuo.
Uma revisão global de 2024, publicada no Journal of Autism and Developmental Disorders, identificou sintomas depressivos clinicamente significativos em 45% das mães de crianças autistas.
No Brasil, esse impacto é intensificado pela falta de apoio. Pesquisa publicada na PLOS One (2023) apontou taxas elevadas de ansiedade e depressão em mães de crianças com deficiência, mas também demonstrou que o apoio social adequado funciona como fator protetor direto contra o adoecimento.
Os dados convergem para uma mesma conclusão: o problema não é a maternidade atípica — é a ausência de suporte.
“Cansaço, culpa e solidão”: o retrato de quem cuida sem rede
Débora Saueressig vive essa rotina diariamente. Entre consultas, relatórios, adaptações escolares, disputas por cobertura terapêutica e vigilância constante, ela descreve uma exaustão que não cabe em palavras.
“Em alguns momentos, desistir parece uma opção, tamanho o cansaço, a culpa e a solidão.”
Além da jornada intensa, Débora recebeu recentemente o próprio diagnóstico de autismo — algo que trouxe compreensão, mas também ampliou o peso de uma vida vivida sempre no limite energético e emocional.
Para ela, não é o filho quem gera adoecimento, mas o sistema que desampara:
“A gente adoece tentando garantir o básico. Quem tem um filho autista precisa correr, negociar, implorar, ensinar, explicar — e ainda lidar com o preconceito diário.”
O cuidado que tem gênero, cor e classe
A advogada Vanessa Ziotti, autista e mãe de trigêmeos autistas, reforça que o Brasil ainda trata a dependência complexa — quando uma criança necessita de apoio intensivo para viver e participar socialmente — como responsabilidade privada, quase sempre feminina.
“Toda sociedade possui um grupo de pessoas que vivenciam a dependência complexa. Quando essa dependência é invisibilizada, entregamos o cuidado às famílias — e, dentro delas, às mulheres.”
O resultado é um ciclo de precarização: mães sem descanso, sem renda, sem suporte psicológico, sem tempo para si e frequentemente invisíveis nas políticas públicas.
“Pessoas com deficiência que necessitam de apoio intensivo têm direito à participação social com suporte garantido pelo Estado. Enquanto fingirmos que o cuidado é dever privado das mulheres, perpetuaremos a desigualdade mais silenciosa de todas.”
Os dados evidenciam essa desigualdade. A PNAD Contínua (IBGE, 2022) mostra que mulheres brasileiras dedicam, em média, 21,3 horas semanais ao cuidado e às tarefas domésticas — quase o dobro dos homens. Entre mulheres negras, a sobrecarga é ainda maior.
Para Ziotti, é urgente reconhecer que cuidado é trabalho:
“O cuidado precisa ser tratado como política pública financiada, valorizada e acessível. A sobrecarga que adoece essas mulheres tem gênero, tem cor e tem classe.”
Caminhos possíveis — e urgentes
A partir das evidências e das histórias que se repetem, Débora Saueressig aponta três pilares indispensáveis para mudar esse cenário:
– Garantir terapias baseadas em evidências, sem longas filas, sem disputas judiciais e sem depender exclusivamente da renda familiar.
– Oferecer acompanhamento psicológico para mães e cuidadoras no SUS, reconhecendo que saúde materna é parte do cuidado da criança.
– Investir na formação de profissionais de saúde e educação, para que escolas e consultórios deixem de ser espaços de exclusão.
“Sem preparo técnico e empatia, não há inclusão possível. E enquanto não tivermos dados públicos sobre a saúde mental dessas mães, continuaremos invisíveis nas estatísticas.”
O que adoece não é o filho — é o abandono
O fio condutor de todas as falas é o mesmo: mães não adoecem por criarem filhos autistas; adoecem porque os sistemas que deveriam sustentá-las falham reiteradamente.




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