Quando falar não é simples: autismo, apraxia e os desafios invisíveis da comunicação
- Debora Saueressig

- 5 de mar.
- 4 min de leitura
Atualizado: 11 de mar.
A sobreposição entre Transtorno do Espectro Autista e Apraxia de Fala na Infância exige diagnóstico preciso, escuta sensível e intervenções integradas. Nesta entrevista, a fonoaudióloga Elizabete Giusti analisa os avanços científicos e os desafios clínicos que ainda atravessam famílias e escolas.
Entrevista exclusiva
Por: Débora Saueressig com apoio Kelly Bessa.
A ausência da fala ainda é, para muitas famílias, um dos momentos mais angustiantes do desenvolvimento infantil. Quando o autismo se entrelaça a transtornos motores da fala, como a Apraxia de Fala na Infância (AFI), o desafio se torna ainda mais complexo — e exige precisão diagnóstica, abordagem interdisciplinar e sensibilidade humana.
Com trajetória dedicada aos transtornos do desenvolvimento da fala e da linguagem, a fonoaudióloga Elizabete Giusti analisa a coexistência entre TEA e apraxia, os equívocos ainda presentes na escola e os avanços que a ciência vem consolidando nos últimos anos.
RJT — A literatura recente tem ampliado o debate sobre a coexistência entre autismo e transtornos motores da fala, incluindo quadros de apraxia. Na sua experiência clínica, quais sinais ajudam a identificar essa sobreposição e quais são os principais desafios terapêuticos quando linguagem, comunicação social e planejamento motor da fala se entrelaçam?
EG- Exatamente. A literatura recente, principalmente nos últimos cinco anos, tem caracterizado melhor as manifestações dos transtornos motores da fala e as possibilidades de sobreposição diagnóstica, como ocorre entre o Transtorno do Espectro Autista (TEA) e a Apraxia de Fala na Infância (AFI).
Ambos são transtornos do neurodesenvolvimento e, especialmente na primeira infância, apresentam similaridade fenotípica — ou seja, há sobreposição de sinais comuns às duas condições. Entre os sinais mais descritos estão: dificuldades na imitação, sobretudo de movimentos orais e da fala; alterações sensoriais; dificuldades no processo alimentar; ausência de fala ou repertório verbal restrito na idade precoce; dificuldades no brincar; e rigidez associada a pobre habilidade de ideação.
O diagnóstico diferencial é fundamental para nortear condutas terapêuticas adequadas. TEA e AFI podem ocorrer isoladamente ou coexistir. Nesses casos, é essencial elaborar um plano de intervenção personalizado que integre todas as necessidades do paciente, para que os progressos sejam efetivamente alcançados.
Na sobreposição diagnóstica, alguns sinais se destacam: esforço visível para falar, discrepância na evolução da fala em relação a outras áreas do desenvolvimento, possível base genética comum, histórico de perda de palavras, dificuldades globais no planejamento motor e fala ininteligível ou com repertório muito reduzido.
A intervenção fonoaudiológica deve contemplar tanto as habilidades de comunicação social e linguagem quanto a terapia motora da fala. O profissional precisa prescrever estratégias cientificamente embasadas para o desenvolvimento linguístico e para o ensino motor dos movimentos necessários à produção da fala. Um plano adequado deve ser personalizado, continuamente monitorado e capaz de atender integralmente às necessidades comunicativas da criança.
RJT — A clínica com crianças com transtornos de fala exige escuta técnica, mas também uma escuta profundamente sensível das famílias. Ao longo da sua trajetória, que aprendizados humanos a prática clínica lhe trouxe sobre desenvolvimento, comunicação e tempo infantil?
EG-Toda atuação na área da saúde começa pela nossa compreensão do que significa cuidar. Um profissional abre caminhos, aponta direções e acolhe o paciente e sua família em sofrimento. Atuar nessa área exige sensibilidade, empatia e compaixão — dimensões que nenhuma técnica, por si só, ensina.
A escuta atenta e respeitosa deve nortear todo o processo, desde o primeiro contato. Trabalhar com crianças cuja fala — algo que deveria ser considerado “natural” — se torna um desafio que exige ensino estruturado e prática constante despertou em mim um olhar cada vez mais esperançoso para cada conquista, por menor que pareça.
Descobri o poder transformador da comunicação na vida de uma criança e de sua família. Atuar nessa área é, muitas vezes, dar voz a quem ainda não a tem; é revelar conhecimentos que permanecem ocultos pela ausência da fala. É acreditar no potencial de cada criança com TEA e apraxia e enxergar possibilidades que vão além do diagnóstico.
RJT — Sabemos que alterações motoras da fala impactam diretamente a participação social e o desenvolvimento emocional. Quais são os principais equívocos ainda presentes na forma como famílias e escolas compreendem essas dificuldades?
EG- O maior equívoco é subestimar a inteligência e as possibilidades da criança pelo fato de ela não conseguir se expressar verbalmente. Uma criança ou adolescente que não consegue se fazer entender pela fala é frequentemente colocado em um lugar de limitação que não o define.
Outro erro comum é acreditar que quem não fala não se comunica. Um olhar comunica. Um comportamento considerado “interferente”, como morder ou se jogar no chão, pode ser uma tentativa legítima de comunicação.
É fundamental que familiares e profissionais da escola sejam orientados e sensíveis às múltiplas formas de comunicação. O que muitas vezes é interpretado como “comportamento inadequado” pode ser, na verdade, a única forma que a criança encontrou para expressar cansaço, dor, frustração ou desejo. Reconhecer isso é sinal de respeito e de genuína preocupação com a pessoa que existe antes de qualquer diagnóstico.
RJT — Quais avanços você percebe no entendimento científico e terapêutico dos transtornos de fala na infância e quais ainda são os principais desafios para que esse conhecimento chegue à prática clínica e educacional?
EG- Houve avanços significativos, sobretudo nos últimos cinco anos. Hoje temos maior clareza sobre os diferentes tipos de transtornos motores da fala e seus fenótipos, o que possibilita diagnósticos mais precisos e tratamentos mais eficazes.
As abordagens terapêuticas vêm sendo testadas e validadas, ampliando as possibilidades de aplicação clínica baseada em evidências. As descobertas na área da genética e sua relação com o desenvolvimento cerebral também têm sido cruciais para compreender a origem dos transtornos dos sons da fala.
No Brasil, a criação da Associação Brasileira de Apraxia de Fala na Infância (ABRAPRAXIA) trouxe mais informação, formação e reconhecimento da AFI, inclusive em sua relação com outros diagnósticos.
Apesar dos avanços, ainda temos mais perguntas do que respostas. A oferta de profissionais capacitados continua sendo um desafio, especialmente para famílias que dependem do SUS. A demanda supera a disponibilidade de atendimento qualificado.
No contexto educacional, o olhar integrado, personalizado e verdadeiramente inclusivo ainda enfrenta barreiras. Mas seguimos avançando, acreditando e trabalhando, com a convicção de que o conhecimento compartilhado fortalece famílias, profissionais e, principalmente, nossas crianças e adolescentes.
Elizabete Giusti
Fonoaudióloga clínica com expertise em transtornos do desenvolvimento da fala e da linguagem, especialmente nos transtornos motores da fala (apraxia e disartria). Especialista em desenvolvimento da linguagem e suas alterações pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP), doutora em Linguística pela USP e consultora técnica e sócia da ABRAPRAXIA.




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