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Entre técnica e cultura: os limites da intervenção no autismo

  • Foto do escritor: Debora Saueressig
    Debora Saueressig
  • 5 de mar.
  • 4 min de leitura

Atualizado: 11 de mar.

Thiago Lopes discute o risco de a técnica substituir os valores familiares, a diferença entre oposição e sobrecarga e o que realmente distingue um profissional certificado de um clínico experiente.


Entrevista exclusiva

Por: Débora Saueressig com apoio Kelly Bessa.


Em um cenário de expansão acelerada de cursos, certificações e modelos terapêuticos em autismo, uma pergunta se impõe: até onde a técnica apoia o desenvolvimento — e em que momento começa a moldar a cultura da criança e da família? Doutor em Psicologia e referência em intervenção precoce no Brasil, Thiago Lopes fala à Revista Jornada do Autismo sobre raciocínio clínico, ética nas decisões terapêuticas e a urgência de resultados concretos, sem perder de vista os valores familiares e a realidade social.


Por: Débora Saueressig com apoio de Kelly Bessa


RJT — Quando técnicas de manejo comportamental passam a orientar não só intervenções clínicas, mas também rotinas familiares e escolares, em que momento existe o risco de a técnica começar a organizar a cultura da criança, e não apenas apoiá-la no desenvolvimento?


TL — Ao longo dos anos da minha prática, muitas vezes vi equipes clínicas não tomarem a precaução de conversar com as famílias sobre seus próprios valores e sua forma de viver. Também vi famílias, de certa forma, coagidas a agir e a escolher um estilo de vida muito mais alinhado à técnica do que a uma decisão que cabe à própria família.


Eu entendo, por exemplo, que o excesso de telas pode afetar o desenvolvimento, aumentar estereotipias e comprometer gravemente a evolução da criança. Mas não cabe à equipe clínica definir quanto tempo de tela será permitido ou em quais horários. A equipe pode, eventualmente, decidir não participar do tratamento se considerar que não tem competência para atuar naquelas circunstâncias, mas as decisões finais são da família.


O mesmo vale para contenção física, uso de reforçadores alimentares ou manejo de comportamentos agressivos. Muitas equipes atuam por escassez de repertório, e não de forma organizada, discutindo alternativas com a família. Raramente vejo decisões sendo realmente compartilhadas. Em geral, são decisões técnicas impostas, e não discutidas.

 

RJT — Em muitos casos, o comportamento opositor é descrito como desafio à autoridade. Na sua prática, quando a oposição é, na verdade, uma forma sofisticada de comunicação sobre sobrecarga, medo ou falta de previsibilidade? E o que muda na intervenção quando essa hipótese é considerada?


TL — É fundamental fazer uma boa anamnese para distinguir quando o comportamento opositor é, de fato, desafio à autoridade, e quando é resultado de sobrecarga, falta de regulação ou até um comportamento aprendido.


A análise funcional ajuda muito. Quando o comportamento está ligado à sobrecarga sensorial, ele costuma aparecer após dias atribulados, com muitas mudanças, excesso de estímulos, barulho ou ambientes conturbados. À medida que o indivíduo se restabelece, ele retorna ao seu padrão habitual. Não é uma oposição consistente ao longo dos dias.


Já no Transtorno Opositivo Desafiador, por exemplo, o desafio à autoridade é frequente, consistente e aparece em múltiplos ambientes. A criança ou adolescente se opõe às figuras de autoridade e às regras instituídas de forma sistemática.


É diferente de um shutdown ou meltdown, que estão muito mais ligados ao contexto daquele momento. Quando compreendemos essa diferença, a intervenção muda completamente: deixa de ser punitiva ou confrontativa e passa a ser regulatória e preventiva.

 

RJT — Hoje há uma expansão enorme de cursos e certificações em autismo e manejo comportamental. Qual é o marcador mais confiável, na sua experiência, para diferenciar um profissional que aprendeu técnica de um profissional que desenvolveu raciocínio clínico?


TL — A prova está nos resultados. Recentemente, discutia com uma equipe que dizia não ter melhorado significativamente o comportamento de um jovem porque estavam trabalhando com ele “há pouco tempo”. Já eram cinco meses. Cinco meses é um período muito longo quando se trata de comportamentos graves e disruptivos.


Resultados precisam aparecer relativamente rápido. Em um ou dois meses já é possível observar redução significativa de comportamentos agressivos. Com tecnologias mais atuais, muitas vezes vemos mudanças importantes já na primeira ou segunda semana, especialmente na redução de gravidade, frequência e intensidade.


Há muitos cursos sem supervisão e sem exemplos práticos. Nesses casos, apesar de a técnica estar sendo aplicada, percebe-se falta de experiência, dificuldade de ajuste fino e de individualização. Gestão de comportamentos graves exige precisão e adaptação. Quem domina o raciocínio clínico entrega resultados em tempo adequado — salvo situações relacionadas a condições médicas ou ajustes medicamentosos.

 

RJT — Modelos baseados em alta intensidade terapêutica costumam nascer em contextos com maior disponibilidade de recursos. Como adaptar princípios técnicos quando a família tem limitações financeiras, de tempo ou rede de apoio, sem cair nem na prescrição impossível nem na negligência terapêutica?


TL — Nesses casos, recomendo fortemente o treino parental ou o treinamento de familiares disponíveis. Já trabalhei em contextos de extrema miséria. Em uma caravana a Madagascar, ensinei uma irmã de 9 anos a realizar trabalho de seletividade alimentar com a irmã de 3 anos, porque a mãe tinha dez filhos e não tinha condições de acompanhar diretamente.


A criança só comia arroz, que custava quase oito vezes mais que a mandioca — base alimentar da família. Em duas semanas de treinamento com a irmã, a criança passou a comer mandioca. Parece simples, mas isso mudou a realidade daquela família.


Se não há intensidade terapêutica, precisamos investir no treino dos pais, mediadores e professores. A escola não substitui a terapia, mas o treino parental é o que mais amplia intensidade. Mesmo em famílias com poucos recursos, o convívio diário oferece inúmeras oportunidades de estimulação natural.


Se o profissional trabalha com baixa carga horária — seja no SUS, convênio ou rede privada — ele necessariamente precisa capacitar pais ou cuidadores para multiplicar oportunidades de aprendizagem. Sem isso, a intervenção se torna insuficiente.

 

Thiago Lopes


Doutor em Psicologia, pioneiro na implementação do Modelo Denver de Intervenção Precoce no Brasil.

Fundador do Instituto Farol e diretor do Instituto Edward Tolman, possui mais de 10 anos de experiência internacional em intervenção precoce.

É referência nacional em avaliações, consultorias, supervisão e formação de equipes que atuam com crianças com autismo e outros transtornos do desenvolvimento em diversos países.

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