Entre diferença e déficit: o rigor clínico que protege a singularidade
- Debora Saueressig

- 10 de mar.
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Atualizado: 11 de mar.
Com base em neuropsicologia, análise funcional e desenvolvimento histórico-cultural, Luciana Xavier defende uma prática clínica que diferencia prejuízo real de traço neurobiológico — e recusa a patologização da singularidade.
Entrevista exclusiva
Por: Débora Saueressig com apoio Kelly Bessa.
Em tempos de diagnósticos apressados e intervenções padronizadas, distinguir diferença de prejuízo tornou-se um dos maiores desafios na clínica do autismo.
Para a especialista Luciana Xavier, avaliar não é medir ausência — é compreender o funcionamento.
Nesta entrevista exclusiva à Revista Jornada do Autismo, ela aprofunda critérios técnicos que orientam sua prática e defende uma abordagem que respeita identidade, desenvolvimento e assentimento real da criança.
RJA — Sobre distinguir déficit real de singularidade neurobiológica
LX — Na minha prática clínica, essa distinção não é feita por impressão subjetiva, mas por raciocínio clínico estruturado. Avaliar não é medir ausência.
Avaliar é compreender o funcionamento.
Parto sempre de três eixos integrados: análise funcional do comportamento, perfil neurocognitivo e contexto ecológico.
Um comportamento só é entendido como alvo de suporte quando produz prejuízo funcional mensurável em autonomia, comunicação, regulação ou participação social.
Se não há prejuízo, não há indicação clínica de intervenção — há apenas diferença fenotípica do neurodesenvolvimento.
Esse posicionamento se ancora em Luria, quando compreendemos funções psicológicas como sistemas funcionais dinâmicos, e em Vygotsky, ao reconhecer que desenvolvimento é relação entre potencial e mediação.
Não trato traços autísticos como falhas estruturais a serem eliminadas.
Diferencio claramente marcador diagnóstico de indicador de suporte.
O DSM-5-TR não define autismo por traços isolados, mas por presença de prejuízo clinicamente significativo. Essa é a fronteira técnica que impede a patologização da singularidade.
RJA — Como identificar crescimento real e não apenas adaptação comportamental?
LX — Resultados verdadeiros aparecem quando há generalização espontânea e redução de custo cognitivo. Criança que evolui não é a que executa tarefas treinadas. É a que transfere repertório para contextos novos sem prompting.
Alguns marcadores clínicos objetivos que utilizo: aumento de iniciativa comunicativa sem instrução flexibilidade diante de mudanças sem escalada emocional uso funcional da linguagem para regular estados internos redução de esquivas e aumento de exploração ambiental manutenção de habilidades mesmo após retirada de suporte.
Se a resposta só ocorre na presença do terapeuta ou de reforçadores artificiais, não houve desenvolvimento — houve condicionamento contextual. Crescimento genuíno amplia autonomia e segurança interna. Adaptação superficial apenas aumenta a conformidade externa.
RJA — Quais são os sinais clínicos sutis em meninas e mulheres autistas?
LX — O fenótipo feminino frequentemente é mascarado por estratégias compensatórias. Na escuta clínica, sinais recorrentes incluem: relato de exaustão social após interações aparentemente bem-sucedidas histórico de imitação social consciente e ensaiada interesse intenso socialmente aceitável, porém absorvente rigidez cognitiva internalizada ansiedade antecipatória em contextos sociais narrativa autobiográfica marcada por sensação crônica de inadequação Esses indicadores raramente aparecem em triagens padronizadas.
Exigem entrevista clínica aprofundada e análise qualitativa.
Quando identificados, deslocam o foco do comportamento observável para o esforço adaptativo invisível.
O plano terapêutico deixa de priorizar treinamento social e passa a priorizar regulação emocional, identidade e redução de camuflagem.
RJA — Como o assentimento pode ser prática clínica real?
LX — Consentimento não é apenas um evento verbal.
É um estado relacional observável. Mesmo crianças com comunicação limitada demonstram assentimento por marcadores comportamentais: aproximação espontânea, contato ocular funcional, relaxamento tônico, vocalizações positivas e iniciativa de interação.
Para garantir participação real, utilizo três estratégias estruturais: previsibilidade ambiental com rotinas visuais possibilidade de escolha ativa sempre que possível leitura constante de sinais de aproximação ou esquiva.
Se há resistência consistente, não interpreto como oposição, mas como dado clínico. A recusa comunica algo sobre demanda, sensorialidade ou previsibilidade. Respeitar o assentimento não diminui a eficácia terapêutica — aumenta engajamento, vínculo e plasticidade.
RJA — Como preservar o brincar como linguagem e não transformá-lo em protocolo?
LX — Quando o brincar vira instrumento de treino, perde sua função simbólica e reguladora.
Na clínica, diferencio claramente brincar terapêutico de atividade estruturada. Brincar legítimo possui três critérios: iniciativa da criança flexibilidade de regras presença de imaginação ou exploração espontânea Intervenções podem ocorrer dentro do brincar, mas não devem colonizá-lo. O terapeuta entra como parceiro de experiência, não como diretor de tarefa.
A evidência em neurodesenvolvimento mostra que o jogo simbólico sustenta integração entre linguagem, funções executivas e regulação emocional. Transformar o brincar em checklist de habilidades reduz justamente os mecanismos que promovem desenvolvimento.
Meu princípio técnico é simples: o brincar não é meio para chegar ao desenvolvimento. O brincar é o próprio desenvolvimento em ação.
Luciana Xavier
Neuropsicóloga, diretora da Neuropsicolux e especialista em ABA, Autismo e Deficiência Intelectual. Com mais de três décadas de experiência clínica, é referência nacional em avaliação do autismo e pioneira no estudo do autismo no feminino, atuando em TEA, TDAH, transtornos da aprendizagem, do desenvolvimento, superdotação e altas habilidades. Autora e palestrante em eventos nacionais e internacionais, consultora técnica de uma empresa multinacional de brinquedos e recursos terapêuticos, e colunista mensal da revista Expressão, na coluna Saúde e Comportamento, onde une ciência, sensibilidade e propósito.




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