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Autismo na escola: por que a inclusão ainda falha com milhares de crianças no Brasil

  • Foto do escritor: Kelly Bessa
    Kelly Bessa
  • 5 de mar.
  • 4 min de leitura

Com o crescimento contínuo de alunos autistas na rede regular, o desafio da inclusão deixou de ser pontual e se tornou estrutural — impactando autoestima, aprendizagem e saúde emocional.

 

Por: Kelly Bessa com apoio Débora Saueressig

 

A presença de estudantes autistas na rede regular de ensino já não é exceção. Tornou-se realidade cotidiana em praticamente todas as escolas do país.

 

Em muitas salas de aula, há três ou quatro alunos com Transtorno do Espectro Autista (TEA), exigindo adaptações pedagógicas, sensibilidade institucional e preparo técnico — algo que ainda não acompanha o crescimento dessa população.

 

Um contingente que não pode mais ser ignorado

 

Dados atualizados do CDC (Centers for Disease Control and Prevention) indicam que 1 em cada 31 crianças está no espectro autista. No Brasil, o IBGE estima cerca de 2,4 milhões de pessoas autistas, o equivalente a 1,2% da população.

 

Os números dimensionam o tamanho do desafio: não se trata de um grupo pequeno, mas de um contingente expressivo que atravessa diariamente os portões das escolas brasileiras.

 

Ainda assim, muitas instituições seguem sem planejamento específico, formação adequada para professores ou estrutura interdisciplinar permanente. Na prática, a responsabilidade pela inclusão continua recaindo sobre as famílias — especialmente sobre as mães.

 

Quando a escola não acolhe, a dor aparece

 

Para Sarita Melo, mãe de Elisa, de 7 anos, autista não verbal, a experiência escolar sempre foi atravessada pela insegurança. A filha foi rejeitada por três escolas — não por incapacidade de aprender, mas pela falta de preparo institucional.

 

“A exclusão não acontece só quando a matrícula é negada. Ela acontece quando a criança está na sala, mas não é compreendida”, afirma.

 

Segundo Sarita, a ausência de adaptações e de apoio adequado transforma o ambiente escolar em um espaço de sofrimento.

“Não é apenas sobre conteúdo. É sobre sobreviver ao dia sem adoecer emocionalmente.”

 

Idealizadora da Jornada do TEA, ela destaca que a falta de articulação entre escola, família e saúde faz com que a inclusão ainda dependa quase exclusivamente das mães.

 

Quando a dificuldade escolar vira ferida emocional

 

Para a pedagoga e psicopedagoga Talita Pazeto, mestre e doutora em Distúrbios do Desenvolvimento e mãe atípica, as dificuldades de aprendizagem não tratadas precocemente afetam muito mais do que o desempenho acadêmico.

 

“Elas atingem diretamente a autoestima, a socialização e a saúde emocional da criança. Para uma criança, errar repetidamente, não acompanhar a turma ou ser comparada o tempo todo gera uma ferida emocional profunda. O desempenho escolar está diretamente ligado à construção da autoestima”, explica.

 

Segundo a especialista, ainda é comum que a busca por ajuda aconteça apenas quando o desgaste já está instalado. “Quando a intervenção chega tarde, não perdemos apenas conteúdo — perdemos autoconfiança.”

 

Quando o diagnóstico é realizado com clareza e as intervenções são estruturadas, com orientação à escola e estratégias individualizadas, o cenário muda. Reduzem-se os prejuízos acadêmicos e, sobretudo, evita-se que a criança associe aprender a fracassar.

 

A autoestima também se constrói na sala de aula

 

O prejuízo escolar contínuo mina a autoestima de forma silenciosa. A criança passa a se perceber como “menos capaz”, evita desafios, se retrai socialmente e pode desenvolver ansiedade, desmotivação e sofrimento emocional.

 

O impacto ultrapassa o ambiente escolar. Ele alcança o comportamento, as relações e a forma como a criança se enxerga no mundo.

 

Para a jornalista Débora Saueressig, mãe de um menino autista de sete anos, minimizar o impacto emocional em nome do formalismo acadêmico perpetua exclusões.

 

“Ignorar o desenvolvimento emocional da criança ou tratá-lo como secundário é naturalizar a exclusão dentro da escola. Não existe aprendizagem possível quando a criança é constantemente colocada em posição de fracasso.”

 

AEE é direito, não concessão

 

Um dos principais gargalos da inclusão escolar está no descumprimento de uma obrigação legal básica: a oferta do Atendimento Educacional Especializado (AEE).

 

O AEE é o serviço destinado a organizar recursos pedagógicos e estratégias específicas para garantir a participação e aprendizagem de estudantes com deficiência, complementarmente ao ensino regular.

 

Talita Pazeto lembra que o Decreto nº 12.686 determina que o AEE deve ser ofertado pelas próprias escolas, públicas e privadas. A realização em centros externos é prevista apenas de forma excepcional.

 

“O AEE não é opcional e não pode ser tratado como um favor da escola. A legislação é clara: o Atendimento Educacional Especializado deve acontecer dentro da instituição e integrar o Projeto Político Pedagógico. Quando a escola apenas encaminha o aluno para fora, sem ofertar o serviço internamente, isso não é inclusão — é descumprimento de um direito garantido”, pontua.

 

Quando o suporte não vem, a conta recai sobre a família

 

Na prática, a ausência desse suporte recai com mais peso sobre famílias em contextos de maior vulnerabilidade social.

 

É o que relata Katia Kintino, mãe de Lael, de 8 anos, autista nível 3 de suporte e não verbal. Mulher preta e periférica, professora da Educação Infantil e de Educação Física, com pós-graduação em Educação Especial e Inclusiva, Katia afirma que o problema é recorrente.

 

“Na prática, a inclusão ainda depende da família. Muitas escolas não têm AEE estruturado, mediadores ou plano pedagógico adaptado. O que deveria ser responsabilidade institucional acaba sendo empurrado para os pais. Eu já precisei acionar a Defensoria Pública e o Ministério Público para garantir o básico para o meu filho.”

 

Segundo ela, quando a escola não está preparada, o ambiente deixa de ser espaço de aprendizagem e passa a ser espaço de sofrimento — aprofundando desigualdades sociais.

 

Talita reforça: “Não existe inclusão possível sem AEE efetivo. E não existe respaldo legal para a omissão disfarçada de encaminhamento. Quando esse serviço não é oferecido, quem paga o preço é a criança.”

 

Um debate que precisa deixar de ser privado

 

A discussão sobre autismo e escola não pode ser restrita às famílias. Trata-se de um tema de saúde pública, educação e desenvolvimento social.

 

Ignorar essa realidade significa perpetuar um ciclo de frustrações que atravessa gerações.

 

A orientação dos especialistas é clara: diante de dificuldades persistentes em leitura, escrita, atenção, comportamento ou organização, a avaliação especializada e o apoio estruturado são fundamentais.

 

Garantir aprendizado é importante.

Mas garantir a autoestima é essencial.

 

E isso começa com diagnóstico adequado, articulação entre saúde e educação e escolas preparadas para uma realidade que já está posta — e não vai retroceder.

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