Artes marciais como caminho de inclusão para pessoas autistas
- Debora Saueressig

- 10 de mar.
- 4 min de leitura
Atualizado: 11 de mar.
Disciplina, previsibilidade e autocontrole transformam o tatame em um ambiente de desenvolvimento motor, social e emocional para crianças, jovens e adultos no espectro.
Entrevista exclusiva
Por: Débora Saueressig com apoio Kelly Bessa.
RJT — Você veio da alta performance nas artes marciais para criar um trabalho de inclusão voltado para pessoas com autismo. O que inspirou essa transição e como isso mudou sua percepção sobre desenvolvimento e socialização desses jovens?
FN — No ambiente de alta performance tudo é muito objetivo. A gente aprende desde cedo que repetição, técnica e disciplina fazem o resultado acontecer. Eu cresci com essa mentalidade e aprendi uma coisa que carrego até hoje: a disciplina vence o talento.
Essa transição aconteceu num momento de necessidade pessoal. Eu precisei voltar a dar aulas e, quando retornei ao tatame, recebi um aluno autista. Naquele momento percebi que não sabia como conduzir a aula com ele. Eu simplesmente não tinha conhecimento sobre autismo.
Foi então que comecei a estudar para ajudá-lo. Nesse processo percebi que existia um grupo enorme de crianças, jovens e adultos autistas que estavam completamente fora do esporte e das artes marciais.
Aquilo me tocou muito, porque as artes marciais mudaram a minha vida. Eu fui vítima de bullying e discriminação na escola, e foi dentro do tatame que encontrei disciplina, respeito e desenvolvimento. Quando percebi que muitas pessoas autistas não tinham acesso a esse ambiente, decidi migrar para essa área. Foi uma decisão difícil, porque eu estava no auge da minha carreira no alto rendimento, mas hoje não me arrependo nem por um segundo.
As artes marciais ajudam muito no desenvolvimento motor porque trabalham progressão técnica, etapas claras e previsibilidade. Isso é muito importante para pessoas autistas, que respondem bem a estruturas organizadas.
RJT — A metodologia que você desenvolveu combina artes marciais com princípios comportamentais. Quais elementos são mais importantes nesse processo de desenvolvimento?
FN — Hoje temos uma metodologia estruturada especificamente para artes marciais e autismo. Ela se sustenta em três pilares principais.
O primeiro pilar são as bases científicas. Tudo que fazemos tem respaldo em evidência científica. O segundo pilar é manter a essência das artes marciais. E o terceiro é o acolhimento real das famílias.
O tatame deixa de ser apenas um espaço esportivo e se torna um ambiente de aprendizagem estruturado. Trabalhamos com rotina clara, começo, meio e fim bem definidos, comunicação objetiva e progressão técnica em pequenas etapas.
Também utilizamos princípios comportamentais, como reforço positivo e previsibilidade nas aulas. Isso ajuda muito na construção de habilidades motoras, sociais e emocionais.
Hoje não utilizamos as artes marciais apenas como esporte. Elas funcionam como um complemento terapêutico para o desenvolvimento de crianças, jovens e adultos com autismo. Dentro do tatame conseguimos trabalhar habilidades sociais, tolerância à frustração, autorregulação e autonomia.
RJT — Ainda existe uma percepção de que artes marciais estimulam agressividade. Como você responde a essa preocupação?
FN — Essa preocupação é compreensível. Muitas pessoas ainda não conhecem a essência das artes marciais.
Artes marciais não são sobre agressão. Elas são sobre controle.
Na nossa prática trabalhamos princípios como regra, limite, pausa, comando e autocontrole. O aluno aprende quando começar, quando parar e como controlar a intensidade.
Isso se traduz diretamente em foco, autorregulação e confiança.
Também abordamos muito a questão da autodefesa, principalmente no combate ao bullying. Hoje sabemos que muitas crianças e jovens autistas sofrem violência ou exclusão no ambiente escolar. Ensinar proteção com limite ajuda a desenvolver segurança e autonomia.
A diferença é simples: agressividade acontece quando alguém perde o controle. As artes marciais ensinam exatamente o oposto — aprender a controlar o próprio corpo e reduzir riscos.
RJT — Quais são os maiores desafios para a inclusão de pessoas com autismo nas atividades esportivas?
FN — O maior desafio ainda é a falta de preparo de muitos profissionais. Atender pessoas autistas não é simples.
Eu sempre digo que boa vontade não é suficiente. É preciso conhecimento.
Muitas barreiras acontecem porque o ambiente não está preparado ou porque o professor não sabe se comunicar adequadamente com o aluno autista.
Nos cursos que oferecemos orientamos os instrutores a conhecer profundamente cada aluno, ouvir a família e adaptar a aula às necessidades individuais. A inclusão real começa quando o professor entende que cada pessoa é única.
O esporte tem um poder enorme de inclusão. No tatame todas as pessoas são iguais. Não importa classe social, religião ou posição política. Todos treinam juntos e se respeitam.
RJT — Seus cursos já formaram milhares de professores. Que mudanças você percebe na formação desses profissionais?
FN — Quando comecei a trabalhar com artes marciais e autismo, há mais de 13 anos, era muito difícil. Eu precisei me desconstruir completamente. Costumo dizer que tive que tirar minha faixa preta, colocar a faixa branca novamente e reaprender a dar aula.
Hoje vemos mudanças importantes. Mais de 3.500 professores já foram formados em nossos programas e temos profissionais atuando em 42 países.
O que mais mudou foi a mentalidade. Muitos professores chegam achando que basta ter jeito com crianças. Com o tempo percebem que é preciso metodologia, responsabilidade e preparo técnico.
Eles passam a ensinar com estrutura, planejamento e progressões adequadas. Aprendem a quebrar habilidades em etapas menores, usar comunicação objetiva e construir ambientes de aprendizagem mais seguros.
Essa mudança de mentalidade tem ampliado muito a inclusão de pessoas autistas dentro das artes marciais e do esporte em geral.




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