Adolescência no autismo: quando o risco aumenta
- Debora Saueressig

- 5 de mar.
- 3 min de leitura
Atualizado: 11 de mar.
Entrevista exclusiva com Dr. Paulo Liberalesso
Entrevista exclusiva
Por: Débora Saueressig com apoio Kelly Bessa.
Na adolescência, muitos jovens autistas mudam de perfil.
A ansiedade cresce, o isolamento se intensifica, surgem explosões emocionais, uso excessivo de telas e maior vulnerabilidade social.
Não é apenas “fase”. São transformações biológicas e emocionais que exigem vigilância clínica e acompanhamento estruturado.
Nesta entrevista exclusiva, o Dr. Paulo Liberalesso explica os pontos de virada da puberdade no TEA e quais estratégias são inegociáveis para proteger a saúde mental e o futuro desses adolescentes.
RJT – Quais são os “pontos de virada” na puberdade/adolescência que transformam um caso em difícil (ansiedade/depressão, isolamento, explosões, uso de telas, vulnerabilidade a abuso, demandas escolares), e quais estratégias de acompanhamento longitudinal você considera não negociáveis?
PL – Na adolescência, uma série de alterações biológicas próprias da puberdade pode agravar sinais e sintomas clínicos em pessoas no transtorno do espectro autista. Isso decorre principalmente do aumento da reatividade da amígdala cerebral e da reorganização do córtex pré-frontal, levando a maior sensibilidade ao julgamento social, aumento importante da ansiedade social, maior ruminação de pensamentos, intensificação da sensação de inadequação e desregulação emocional mais frequente e intensa.
Nesse momento da vida, muitas crianças que eram habitualmente “calmas” tornam-se adolescentes ansiosos, impulsivos e, às vezes, até agressivos. Também é comum que, principalmente nos casos de autistas no nível 1 de suporte, a maior consciência das diferenças comportamentais leve a quadros de depressão e isolamento ainda mais pronunciados, já que muitos passam a perceber rejeições mais sutis, exclusões de grupos sociais e dificuldades nos relacionamentos afetivos.
A puberdade nas pessoas autistas é frequentemente marcada por maior impulsividade, aumento da intensidade emocional, rigidez cognitiva acentuada e intolerância à frustração, agravada pela busca por autonomia. Outro problema enfrentado por muitos adolescentes autistas é o uso abusivo de telas, já que elas oferecem previsibilidade — algo extremamente apreciado por pessoas autistas —, reforço imediato e interações com menor complexidade social, o que é altamente reforçador nessa população.
Por todos esses motivos, o rastreamento sistemático de ansiedade e depressão deve ser realizado em todos os adolescentes no TEA. Além disso, o surgimento de sinais de automutilação — como adolescentes que se cortam — deve ser considerado fator de risco para eventos neuropsiquiátricos mais graves e, potencialmente, para tentativas de suicídio.
A adolescência no autismo exige abordagens específicas, que podem ser baseadas na Análise Aplicada do Comportamento (ABA) ou na Terapia Cognitivo-Comportamental (TCC), dependendo dos objetivos a serem alcançados. Abordar de forma clara e explícita temas como sexualidade, relacionamentos afetivos, comportamentos públicos e privados e limites interpessoais é obrigatório nessa faixa etária.
Além disso, sempre que possível, o planejamento para a transição para a vida adulta deve incluir projetos vocacionais, treino de autonomia, educação financeira básica e preparação para o mercado de trabalho, mesmo que em modalidades inclusivas.
RJT – Se você pudesse deixar uma diretriz-mãe: qual é a frase clínica que organiza sua abordagem nesses casos? E o que você vê como prioridade para o Brasil nos próximos anos nessa agenda?
PL – Minha diretriz mais importante seria: “avalie a pessoa, e não o autismo”. O que quero dizer com isso? Não existem duas pessoas autistas iguais, assim como não existem duas pessoas não autistas iguais. Se tentarmos propor intervenções padronizadas para pessoas no transtorno do espectro autista, falharemos na imensa maioria das vezes.
Resumidamente: não tratamos autismo, tratamos pessoas. E cada uma delas terá necessidades distintas de intervenção.
Em relação às prioridades para o Brasil nos próximos anos, eu diria que temos três eixos estruturantes.
O primeiro é formação técnica qualificada e menos ideológica. Precisamos urgentemente de diagnósticos mais precoces e mais precisos, melhor diferenciação entre os diferentes perfis de autismo e suas comorbidades e o estabelecimento de protocolos claros para as diferentes idades.
O segundo é a estrutura de transição para a vida adulta. Atualmente, temos uma estrutura relativamente desenvolvida no Brasil para crianças autistas, mas praticamente nenhuma para adolescentes, jovens e adultos no TEA. Precisamos ampliar nossa capacidade de atendimento nessa transição, com clínicas específicas, programas vocacionais, ampliação do acesso ao mercado de trabalho, treino de habilidades adaptativas e políticas públicas voltadas às fases que se seguem à infância.
O terceiro eixo é colocar a saúde mental no centro do cuidado das pessoas autistas. A agenda do autismo no Brasil ainda é muito focada em terapias de desenvolvimento, mas pouco centrada em depressão, ansiedade, risco social, vulnerabilidade e abuso — eventos extremamente frequentes na vida de pessoas autistas durante e após a adolescência.




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